Other Face Of The World
Às vezes a gente sonha, sonha e acorda no mesmo lugar onde foi dormir. Às vezes a gente corre rápido demais e tropeça nos próprios pés. Às vezes o superficial penetra pelos poros e a chuva cai inclinada pelo vento. Às vezes abraço alguém que eu nunca mais verei. Às vezes queremos mudar o mundo mas esquecemos de mudar nós mesmos. Às vezes as palavras que colocamos em um papel podem significar, e dizer, muito mais do que as palavras que falamos. Às vezes o inesperado desiste de bater na nossa porta, mas mesmo assim a gente fica esperando. Como se algo estrondoso pudesse acontecer. E quem disse que não vai acontecer? Porque o destino, a vida, os sonhos, e todas essas outras palavras bonitas não estão apenas nos refrões das melhores músicas ou nos melhores versos de um poeta. Estão na outra face do mundo. Aquela que só quem quer consegue ver.

O amor é um pecado

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Não consigo chorar. Escrevo. Assim sou: escrever é a minha válvula de escape, o meu oxigênio, o meu momento de meditação. É a minha forma de abrir o meu verdadeiro eu. Eu não sou uma pessoa fácil de conviver, eu sei disso. Mas eu tento. Eu já fui muito mais orgulhosa do que sou hoje… e já perdi muita coisa sendo assim; eu já tive medo de amar e perdi outras tantas. Hoje eu só tento medir a quantidade de tudo o que eu sinto com as minhas ações, mesmo que seja difícil: eu ainda tenho medo de sofrer um grande machucado – e quem não tem?

Entretanto eu amo. Amo tanto que não cabe em mim. Eu sou daquelas que quando ama, ama para valer. Sou capaz de ir até o Japão só pela pessoa. Não sei, acho que isso é culpa da minha mãe, visto que ela sempre me disse para aproveitar cada segundo ao lado daqueles que amamos e nunca se esquecer de dizer (mas principalmente de demonstrar!) isso para eles. No entanto, ela também sempre soube me dizer para “me guardar”, pois o amor pode ser maldoso quando machuca. Bom, na verdade as pessoas é que são cruéis (e idiotas).

Eu sou um iceberg quando eu quero. Ah, e eu sei ser. Eu sei enganar muito bem as pessoas quanto ao que eu sinto – é a minha capa de proteção. As pessoas te batem tanto que você cria uma armadura delas. Eu tirei essa armadura para você e por nós. Eu quis o “nós” e sempre vou querer, mas às vezes isso só não basta. A vida não é tão simples e, se talvez morássemos em um local deserto, isso poderia funcionar. Entretanto não é assim. Existem coisas externas que atingem a nossa vida, sejam pessoas, coisas ou simples problemas de vida mesmo, como uma dificuldade financeira - ou problemas que a gente cria. Se o “nós” não prevalecer em ambos os lados, isso não funciona.

Ok, eu tenho erros. MUITOS. Eu admito isso. Porém, quem não tem? Por isso eu acho que antes de atirarmos pedras em alguém, precisamos nos olhar no espelho. E é chato quando vamos conversar com alguém e ela sequer te ouve: só sabe jogar na defensiva e tentar atirar os erros só para um lado da história. Isso não é legal. Quando não se pode dialogar, mais nada dá certo. O diálogo é a base de qualquer relacionamento.

Por isso, aqui estou, tentando escrever e colocar em ordem o turbilhão de coisas que sinto. Provavelmente esse texto está sem pé e cabeça, entretanto é assim que me sinto no momento – como alguém que joga às cegas e não sabe o que toca, onde pisa e o que fazer. Se eu colocar a minha armadura, talvez tudo termine (e eu deixe o medo de sofrer prevalecer). Porém, se eu tirar essa armadura, quem garante que você está pensando no “nós”, que vai tentar ouvir, que vai tentar não jogar na defensiva e tudo o mais? Nada me garante e eu posso me machucar (e muito). O que fazer? Como lidar? Opto por arriscar andar em um campo minado e, caso eu pise errado, pisei, certo? Ninguém pode dizer que eu não tentei.

Eu te amo, entretanto também sou um ser humano e, como bom ser humano, eu erro - nós erramos. Então, vamos viver, vamos tentar passar por isso juntas, ouvindo uma a outra e tentando chegar a um consenso, mesmo que seja difícil e doa. Como uma tatuagem, que dói para fazer, fica em você para sempre e, mesmo que um dia aquela fase passe – e a tatuagem perca a sua graça – ela faz parte de você e da sua história, e é isso o que importa. Ela para sempre terá um significado e importância, apesar de ter doído e apesar de você não lembrar mais. Pode te lembrar algo bom ou ruim, mas vai lembrar. Espero que isso me traga lembranças de coisas boas. Vamos lá pisar em um terreno duvidoso e seguir os conselhos da minha mãe – menos o de me proteger. O amor é louco. Só pode ser.

Eu ainda quero acordar muitas manhãs com você ao meu lado. Vamos andar em um campo minado juntas?

Friday, June 6, 2014

Ah, a crise

Até hoje eu me pergunto como eu fui me apaixonar por você. Ainda espero a resposta divina para isso. O seu jeito de se vestir não condiz com o tipo de pessoa que eu olho e digo: “nossa!”. A maioria das músicas que você ouve não tem nada a ver comigo; o jeito que você ajeita o cabelo é do jeito que eu todo dia tenho que lhe chamar atenção. O jeito que você deixa a sua cama desarrumada me irrita; a forma como você não sabia que estrogonofe era feito com creme de leite; a forma como tudo eu tenho que lhe dizer, porque parece que você não chega às conclusões tão rapidamente. A forma como você se cala diante de algumas coisas e tenta ser pacífica demais – isso me irrita. Essas coisinhas, e outras mais, me irritam profundamente. Eu fico me perguntando como eu consegui ficar com você todo esse tempo, tendo tanta coisa que me irrita em você. E o que dizer da forma como você fica quieta quando tudo o que eu quero é que você me agarre e me abrace? Ah, como me irrita!

Bom, aqui estou eu ouvindo Arctic Monkeys e relendo um livro do Stephen King, enquanto ignoro suas mensagens. Não vou responder, não vou e não vou! Sou orgulhosa mesmo. Estou aqui, fingindo que não me importo, quando no fundo estou me corroendo e sem saber o que fazer. Chegamos naquelas fases do namoro em que existem “crises”. Pensei que isso nunca bateria na nossa porta, porém bateu – como se tudo o que odiássemos na pessoa ficasse em evidência extrema e tudo o que você quer é distância dela, para não haver mais brigas ou discussões de relação, porque ninguém aguenta mais.

Sabe o Arctic Monkeys e o Stephen King? Eles não estão nessa história à toa. Releio um livro do Stephen King chamado, justamente, “Love” – e fala exatamente sobre um amor que passou por cima de tudo, até sobre os piores pesadelos da pessoa. Um resumé bem chulo do livro que eu fiz (leiam, ele é muito mais do que isso). Para completar o pacote, ouço “Mad sounds” do Arctic Monkeys, que fala justamente sobre um casal que simplesmente chega à conclusão de que: “(…) nós simplesmente não estávamos se sentindo como queríamos; você se senta e tenta algumas vezes, mas você simplesmente não consegue descobrir o que deu errado”. O que deu errado para nós?

Eu acho que nada. Essa é a resposta. Nós apenas saímos daquele estado de “paixão” e passamos a encarar a vida como ela realmente é: com problemas, onde as coisas não são como um eterno carnaval onde tudo é só folia e alegria. Os problemas surgiram e, junto deles, o medo, a insegurança e as dúvidas eternas. Será que estamos fazendo isso certo? Será que não estamos confundindo tudo? Eu acho que não. Não existe certo ou errado, existe o que sentimos e ponto. E se estivéssemos confundindo tudo, eu não estaria agora, depois de tanto me corroer, escrevendo esse texto e desejando que você estivesse na minha cozinha misturando louça com gordura com vasilhas de plástico, deixando tudo ainda mais sujo (mesmo que eu ficasse incrivelmente irritada com isso).

A verdade é que passamos a ver os nossos erros e fraquezas com mais clareza e o véu do lindo, belo e maravilhoso, apenas caiu, pois isso não existe. Nenhum relacionamento é assim. Momentos ruins vão surgir e instabilidades também. Vai ter um dia em que a louça misturada na pia vai me deixar mais irritada que o normal e vamos brigar, entretanto não quero jamais que uma louça idiota atrapalhe o nosso relacionamento. E sabe o seu cabelo e a sua cama desarrumada? Eu vou todo dia encher o seu saco com isso, como uma mãe chata mesmo. Assim como você vai encher o meu saco com algumas coisas e, dessa forma, vamos acrescentando jeitinhos nossos uma na outra, se completando. Ninguém disse que ia ser fácil, porém ninguém disse que também seria impossível. E, se fosse fácil, não teriam tantos relacionamentos tendo fim - e eu não quero que isso ocorra conosco.

Ah, e eu não posso esquecer que, o que fez eu me apaixonar por você, foram coisas muito mais importantes do que todas aquelas citadas no início do texto. Exemplos: o jeito como você sorri de nervosismo, a sua inteligência, o seu dom para pintar, como você não se importa com coisas idiotas (como roupas), como você sempre vê o lado bom das pessoas… E eu poderia ficar aqui fazendo um texto só com as coisas que fizeram eu me apaixonar por você; que fazem eu ficar mais apaixonada por você a cada dia, essa é a verdade. Tudo isso porque eu te amo e amor não é algo que possa ser deletado por causa de coisinhas tão insignificantes. Às vezes nós apenas esquecemos o que realmente importa, entretanto nada como um bom livro e uma boa música para nos relembrar.

Agora espera, porque eu preciso responder as mensagens de uma pessoa. 

Wednesday, June 4, 2014

A vida manda um recado

Tocava uma trilha sonora de filme no aeroporto, no alto-falante. Ela só conseguia olhar para frente e isso era tudo. Segue em frente. Um passo, dois, siga. Era um recomeço. Voar, mudar de lugar como um nômade era uma forma de recomeçar, do zero. Um novo lugar, uma nova cabeça, novos sentimentos. Era isso o que ela queria. Para onde especificamente ela estava indo? Ninguém sabia, nem ela mesma. Ela só queria parar de seguir o fluxo, de pegar o mesmo avião para o mesmo lugar que todos, que não pareciam ficar satisfeitos quando chegavam lá – ela queria ir em frente, sem medo do novo. Quem estaria esperando-a no aeroporto, ninguém sabia, nem ela mesma. Poderia ser qualquer um, assim como poderia ser o nada – o futuro. Sem medo, ela seguia. O nada ainda poderia ser muito aconchegante, para quem apenas precisa de uma folha branca para escrever de novo.

Ah, o novo. Parece um bicho de sete cabeças, como quando você vai sempre comer num mesmo lugar e de repente muda. Comida nova, local novo, preços novos e atendimento também. Mas precisamos arriscar: talvez naquele lugar tenha a melhor comida do universo. E lá estava ela, sentindo algo novo e trilhando uma nova vida. O medo batia, às vezes ela acordava de madrugada e se perguntava quem era aquela no seu corpo e na sua mente – um novo ser, em processo de evolução. Ela não podia gritar: o novo está nela, como um estranho por baixo da sua pele. Calma, não fique com medo! Você sabe, muito bem sabe, como esse novo lhe proporciona prazer e como você morreria sem ele. Poderia ser heroína, mas não é. Não faz mal, mas pode viciar. Isso não apenas eleva o seu grau de felicidade e satisfação, entretanto também aumenta todos os seus sentimentos… O amor, os batimentos cardíacos e a saudade ao estar longe.

Lá está ela, finalmente desembarcando em outro aeroporto. Ela sabia que aquilo era inevitável; ela sabia que não poderia deixar de lado tudo o que ela estava sentindo naqueles últimos meses. O medo a perseguia, ia dentro da sua bagagem, porém hoje ele estava mais quieto. A confiança que ela passou a exalar ao pisar naquele avião, sem previsão de volta, a fez pensar como poderia ser desastroso, mas também poderia ser satisfatório. Apenas pula, sem querer saber se vai encontrar o fundo para voltar à superfície. Apenas pule.

Ao analisar o mar, passando pela orla do local de onde desembarcou, ela pensou em como esses momentos podiam ser vistos como uma onda e a vida como o mar e toda a sua imensidão. O mar modifica as ondas, mas quem vai determinar se ela será aproveitada ou não, depende de quem for pegá-la. Você pode fazê-la a onda da sua vida, ou pode simplesmente deixá-la passar, ou não pegá-la com tanta dedicação. O mar pode modificar as ondas, mas quem vai determinar se os momentos serão bons, será você. A cada momento bom ou ruim, você vai gostando mais ou menos do mar – como um surfista que diz que o mar estava perfeito tal dia, ou que estava horrível. Você escolhe.

Com esse pensamento ela foi, sem medo algum, para dentro do mar. Ela simplesmente se jogou na vida. Se ela poderia cair numa vala, ou se as ondas estariam boas ou ruins, ela iria determinar naquele momento, ao ir sem medo e aproveitar ao máximo. Se o amor daria certo, ela não sabia; se ia durar, ela não sabia; se as coisas iam sair bem, ela não sabia. Ela não sabia, e nem poderia saber. Você precisa viver a vida, sentir o mar, para saber o momento para remar, o momento para esperar e para onde ir. Você sente. É quase como o instinto de caça do leão. Tudo o que você sabe, na verdade, é que um dia a vida vai acabar – e neste momento o único jeito de fazer uma comparação com o mar é analisar que, ao entrar nele, seu tamanho parece não ter fim. Porém tem, da mesma forma que a vida. Se não há certeza de nada, o único jeito de descobrir é comprando uma passagem, embarcando no avião e indo, sem pressa para chegar, sem passagem de volta e sem medo de quem estará lá, ou do que vai acontecer. Apenas sinta; apenas viva. 

Thursday, May 22, 2014

Um dia qualquer

Hoje é um daqueles dias em que eu não consigo dormir, por mais que precise e já tenha passado da hora de ir para a cama. Só estou na janela, comendo tangerina, olhando a lua – que está minguante – e pensando como é bom o silêncio que a minha rua faz a noite. Eu gosto da escuridão, sempre gostei. O escuro me atrai. De noite dorme o barulho e prevalece o silêncio; a rua fica vazia e, as poucas pessoas (e praticamente as únicas) que andam por ela, eu posso observá-las melhor. A mulher que atravessou a rua, que estava deserta, podia ser qualquer uma. Ela podia ser uma médica voltando do seu plantão, ou podia ser apenas uma pessoa que se atrasou para voltar para casa do trabalho, por diversos motivos. Entretanto, lá estou eu, vendo ela, e apenas ela, e podendo imaginar como é a sua vida. E por que ela não observa como a lua está bonita? Tudo bem que é perigoso andar na rua sozinho de madrugada, mas a rua é sua. Você mal sabe que eu estou te observando da minha janela. Você segue a sua vida e eu a minha – talvez um dia nos cruzemos na rua e você mal saiba que eu estava te observando naquele momento.

E lá se vai você… e eu deixo o meu pensamento também vagar para bem longe. Vou até aquela pessoa que me rouba o sono e que me faz refletir sobre as minhas atitudes enquanto como tangerina e observo a lua na madrugada. Você sabe que eu penso em você? Você sabe em tudo o que eu penso? Você sabe que me rouba o sono? Você sempre me rouba o sono. Eu queria que fosse tudo mais simples para nós, como é nas ruas à noite com elas vazias, com a escuridão nos escondendo e nos fazendo achar que somos únicos neste mundo, além de pensarmos que somos donos da rua. O caos se vai e tudo o que resta são os nossos pensamentos, que nos perseguem até nos sonhos. Você sabe que no momento o meu pensamento é apenas você? Eu queria que você caminhasse na escuridão comigo, esquecesse todo o resto e pensasse que as ruas, e a sua vida, são realmente suas – sem medo do que vão achar, sem precisar se esconder, sem precisar passar por essas dúvidas, pois tudo será mais simples. Você estaria no comando. Eu toparia andar como sombra se eu tivesse você completamente para mim. O resto se tornaria resto e nós não veríamos mais do que precisamos. Nada de enxergar a carcaça que tanto gera rótulos, pré-conceitos, bonito ou feio, aceitável ou não. Iríamos nos ver como nossas almas são: sem sexo, sem matéria, sem status, sem beleza ou não… Seríamos iguais, como sempre deveríamos ter sido. E, depois de tanto viajar nos pensamentos, volto ao mundo real. Logo mais o sol nasce e tudo volta ao normal, incluindo a nossa vidinha de sempre: sempre corrida, sempre sem tempo para nós mesmos, sempre sem tempo para pensar, sempre tendo que entrar em padrões que nos sufocam. Sempre não sendo nós mesmos, na nossa mais pura essência. 

Saturday, May 10, 2014

Só me joguei… no amor.

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Eu realmente não sei qual o tempo certo das coisas, o que devo fazer e o que não devo, em um relacionamento. Alguns dizem que não pode se entregar tão rápido, que precisa ir devagar. Outros acham loucura tornar as coisas tão sólidas em apenas alguns meses. Eu digo que isso não tem um manual. 

O que determina o tempo certo são justamente os momentos e as risadas trocadas. São os gostos compartilhados, as histórias de vida, um aderindo ao jeitinho do outro… E o que é seu, seja material ou emocional, se torna também da outra pessoa. É não ter medo de se jogar de cabeça, como quem se joga em uma piscina e não procura o fundo, para pisar e voltar à superfície. Você só quer curtir aquele momento, aquela água e cada parte do oxigênio que você pegou como fôlego. Assim é o relacionamento: você só quer vivê-lo, contruí-lo; aproveitar cada abraço compartilhado, cada noite que dormiram juntos; cada camiseta compartilhada, ou escova de dente, ou perfume; cada piada, pensamento, medo e felicidade. Se vai dar certo? Isso ninguém sabe. 

Eu posso não saber se vai dar certo, eu posso ter medo em alguns momentos, eu posso pensar no passado e duvidar que hoje, finalmente, eu encontrei alguém que me ama do jeitinho que eu sou… porém eu estou vivendo - e é isso que no final vai importar. Eu vou poder dizer: eu vivi meses que pareceram anos, anos que parecerão décadas e décadas que parecerão vidas. Eu vivo. E tudo o que eu quero é manter a minha cabeça no seu ombro na hora de dormir. No momento a minha maior tristeza é não poder congelar aqueles momentos únicos que eu vivo com você; é não poder evitar dizer “tchau” depois de todo dia, tarde, ou noite, perfeitos com você. 

O que mais quebra o meu coração não são as suas atitudes, como em muitos outros relacionamentos aconteceu. Nos completamos tão bem, e temos uma sintonia tão sincera, que às vezes eu penso que, se nós terminarmos, é porque fomos burras demais para permitirmos isso. Ou orgulhosas demais. Ou imperfeitas em excesso e não tentamos melhorar. Assim, o que quebra o meu coração agora é ter que ver você com aqueles olhos desolados, com aquele olhar de quem diz: “fica, por favor, para sempre”, toda vez que eu preciso ir embora, ou você precisa. Fica uma olhando para a cara da outra, tentando aproveitar cada último segundo, mas a despedida é inevitável. Minha tristeza, neste momento, é não poder compartilhar com você a cama, o café da manhã, o armário, o banheiro e até as contas do mês. Precipitada, eu? Não, eu apenas amo. E me jogo de cabeça nesse sentimento único, que agora eu tive a dádiva de sentir fortemente e receber de volta. Não sou estúpida de jogar fora essa coisa mágica e concreta. Então, aqui estou escrevendo sobre o amor, de novo. Quem diria.

Friday, May 9, 2014
"E ali
entre pescoço,
orelha e cabelos
sinto cheiro
de um futuro bom"
Tuesday, April 29, 2014

Dois meses e um dia

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Dois meses. Dois meses e um dia. Entretanto, podiam ser dois semestres, dois anos, duas décadas, dois séculos… duas vidas, até. Sim, talvez outras vidas, por que não? Só assim para certas coisas terem sentido. 

Eu, que nunca acreditei muito no amor, de repete encontro aquela pessoa que me completa. Procurei, procurei e procurei… e fui encontrar justamente de uma forma que foge de todos os padrões e de todos os sentidos que a sociedade nos impõe. Na verdade nós nos demos sentido: ao nosso sentimento, aos nossos olhares, aos nossos toques… a cada momento que vivemos. 

De repente os poemas de Vinicius de Moraes fizeram sentido e, eu, que sempre achei aquilo exagerado demais, passei a entender todo aquele amor por trás. Não é exagero, é entrega ao sentimento. É o suspiro, o coração batendo mais forte e o rosto corando. É a vontade de te beijar quando eu olho para você de relance, você me flagra te observando e me olha com aquele olhar de “ei, sua boba, não me olha assim porque meu coração dispara”.

É não ter medo do que vão falar, é não ter medo de como vão nos olhar… é não ter medo sequer de sofrer. É chorar, mas de felicidade. É sentir algo que vai além do sentimento supremo chamado “amor”. É não saber explicar para alguém como você se sente, porque só sentindo tudo isso para entender (e no fundo todos querem sentir, apesar do medo eloquente de sofrer, de errar, de ser enganado). É querer fazer a pessoa se sentir amada todo santo dia. É querer vê-la feliz, pois isso te faz feliz.

É simplesmente amar, pois para o amor não existe certo ou errado, ou um manual de uso. É sentir. E isso eu posso dizer: nunca senti tanto em dois meses e um dia, a ponto de eu olhar para trás e parecer que não havia vida antes daquela data em que nos beijamos pela primeira vez, em que eu quebrei com todos os conceitos que me impediam de ser feliz - eu era vazia, eu era incompleta, eu era angustiada, eu não era eu mesma. Posso dizer, então: acho que eu finalmente encontrei aquilo que eu tanto busquei, no meu íntimo, a vida inteira - o amor verdadeiro, a outra parte da minha alma. 

" (..) E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.” - Vinicius de Moraes

Sunday, April 13, 2014

Ana!

Ana era bela.
Mui-bela.
Talvez a mais bela mulher que já conheci.
O seu olhar.
O seu olhar era brejeiro.
E o seu jeito matreiro.
Ela parecia uma criança.
Uma criança ou uma mulher?
Com os seus dezoito anos podia ser considerada uma criança;
mas, seus peitos transluzidos que teimavam em furar-lhe a blusa, suas ancas que lhe requebravam ao caminhar, todo o seu corpo, e que corpo, dava-me a visão de uma mulher.
E que mulher.
Parecia que Afrodite tomava-lhe o corpo e que esse, transformado em mulher, suspirava pelo amor.
Eu via Eros transpirando em seus poros
Seu cheiro…
Andava sempre perfumada;
mas, o seu cheiro exalava o néctar de Baco que tanto me embriagava de desejo.
O mais voluptuoso.
Tudo nela aspirava amor.
Não atraia só a mim.
Por onde passasse , todos a olhavam.
Todos a cobiçavam.
Ana era linda.
Que homem não cortejou aquela menina.
Eu a amava.
Quantos não a amavam.
Ela instigava a todos.
Ela era muito especial.
Era mui-sensual.
Parecia uma bruxa a enfeitiçar quem dela se aproximasse para o pecado do desejo.
Sofríamos por ela.
Por que não se decidia?
Por que só nos provocava com desejos?
Provocava;
mas, não se entregava.
Nenhum homem teve acesso a ela.
Nenhum homem que a vira passar deixou de sonhar com ela.
Ah!
Ela não poderia ser de nenhum deles.
Tão pouco seria minha.
Aquela menina.
Aquela menina, chamada Ana, amava outra mulher.
E a esse amor, entregou-se de paixão.
Paixão incompreendida.
Para a família, amor impossível.
Ana, então, morre na desilusão.
Mas não morreu Ana por causa do seu amor.
O seu amor não a matara.
Ana morreu de desprezo.
Ana morreu desiludida da vida que tanto anelava.
Ana morreu desiludida de seus amigos.
De seus pais que também a desprezavam.
Ana morreu do preconceito que não podia entender o grande amor que teve por…
Laura.
Ana morreu!
E agora?

Saturday, April 12, 2014

Uma parte de mim

Era madrugada e eu estava dentro de um táxi, no banco de trás, deitada no seu ombro e voltando de uma festa. Passamos pela Lagoa Rodrigo de Freitas e você me lembrou como já parecia que anos tinham se passado desde a última vez que fomos naquele lugar e ficamos tão no nosso mundo. Desde então você tem sido o meu mundo.

É louco pensar que parece que faz uma vida que estou com você, quando na verdade só tem um mês e algumas semanas. É mais louco ainda pensar em como eu pude viver tanto tempo sem ter você ao meu lado, como se antes eu não estivesse vivendo mesmo, mas fingindo que estava feliz - e, no fundo, tudo o que eu queria era encontrar a minha outra metade da laranja (e quem não quer?). Às vezes eu paro e penso se tudo isso é real, porque é muito perfeito. Fico me perguntando, também, se eu mereço tudo isso. Tantas pessoas passam por essa vida e não amam, e não são amadas, como eu. Sou muito sortuda. 

De manhã, ao contar as suas sardinhas, eu percebo como é fácil amar - principalmente quando essa pessoa é você. É você permitir experimentar algo, sentir algo, se entregar… sem pensar no futuro, ou no que possa acontecer. É só ser você mesmo, olhar bem nos olhos da pessoa, ser sincero sobre os seus sentimentos e se permitir ser feliz. Muitas vezes pensamos tanto, ou colocamos tantas objeções na frente, que parece que temos medo dessa felicidade. Parece até que ser feliz, nesse mundo, é algo errado. 

Talvez para o mundo eu seja a errada. Algumas vezes eu até penso sobre isso… eu, a ovelha negra da família e a ovelha negra de um mundo tão preconceituoso, que cria rótulos para cada pessoa. Então eu vejo como essas pessoas não são felizes, pois a dádiva do amor não está preocupada com os padrões da sociedade, mas com o sentimento verdadeiro. Dessa forma, eu olho para você novamente, e me enxergo dentro do seu olhar. Você já faz parte de mim agora e, pensar por um só instante na minha vida sem você, é não conseguir pensar na minha existência.

Com todas as mudanças loucas e rápidas que tem acontecido na minha vida, eu ganhei você como presente. Eu poderia ter fechado as portas da minha alma para essa experiência e hoje eu não estaria tão feliz e completa como estou. Até hoje eu não sei como eu tive coragem de cair de cabeça nessa grande aventura, mas não tem sentimento melhor do que saber que foi feita a coisa certa. Chutar o balde para todos os conceitos que eram empurrados goela abaixo, para tudo aquilo que eu pensava sobre eu mesma, não me mostrou apenas a felicidade, entretanto ainda mais quem eu sou - e você tem me ajudado cada dia mais nisso. Hoje eu não penso mais apenas como um, porém como dois. Hoje eu durmo e acordo pensando em você. Hoje, quando o mundo parece estar me engolindo, eu sei que eu terei uma mão para me puxar do abismo. E eu só tenho a agradecer a você por tudo.

Se eu estou agindo errado segundo a sociedade e os seus conceitos ridículos, eu não me importo. Eu sou feliz, eu vivo, eu tenho alguém que me ama… eu achei a pessoa que muitos morrem e não encontram. Hoje, eu posso dizer: eu sou feliz, apesar dos apesares. Eu estou completa, porque é isso o que o amor faz. “Ah, mas um dia talvez não exista mais isso, porque nada é para sempre” - bom, tudo o que eu posso dizer é que me entreguei para esse sentimento. “Quem te garante que você não está se confundindo e apenas querendo viver uma aventura amorosa diferente?” - eu sinto, e de uma forma bem intensa. Se isso for apenas uma aventura, então eu jamais quero sair dela. Serei como aquelas pessoas que viajam pelo mundo, sem lenço e documento, apenas segurando a sua mão - e eu seria completa assim. E o futuro que fique no futuro, pois o meu agora é você. Agora e de manhã, quando eu acordar e pensar que tudo isso é um sonho, até ver que o seu corpo ao lado do meu é muito real. Obrigada por tudo isso. Eu te amo.

Wednesday, April 2, 2014

O passado se faz presente

João estava na sala ao lado, mas os sons podiam ser ouvidos com muita clareza. Ela gritava aos quatro ventos, mas não eram palavras de amor - eram palavras de dor. A dor de alguém que é obrigada a engolir mentiras, a perder a sua liberdade, a não poder andar na rua a hora (e como) quiser. É o grito de quem chora por dentro. Os socos, pontapés, choques e a violência sexual sofrida não chega aos pés da dor de saber que você é mais um, que você não possui direitos, que ninguém saberá o que aconteceu com você, que o futuro realmente a Deus pertence. A dor de saber que ninguém vai te ajudar é muito maior do que qualquer outra, principalmente porque quem deveria zelar por você, não faz isso. 

Essa poderia ser mais uma história, porém não é. É tanta violência que chega a ser irreal. Pois bem: há cinquenta anos era posta, com grande apoio dos setores mais conservadores, uma ditadura que era definida como uma retenção à ameaça comunista. Uma desculpa, na realidade, ao medo de uma sociedade um pouco mais justa, como seria se houvessem sido realizadas as reformas de base. Reformas essas pela qual lutamos até hoje! Foi, então, definido o golpe como algo que seria temporário, mas que se estendeu 21 anos, com uma forte repressão, censura e violência. No início a elite brasileira adorou, pois os torturadores ainda não encostavam o dedo nos seus filhos e a economia parecia estar indo às maravilhas (muitos, inclusive, enriqueceram nesse período) - até começar a inflação a aumentar. Até os seus filhos serem torturados como qualquer outro filho desse Brasil, e não mais como o protegido. 

Não venho aqui refazer a história, porque isso o Google pode fazer. Venho aqui tentar expressar toda a dor que eu sinto ao relembrar tamanho terror. Venho aqui relembrar meu avô, que teve que se aposentar e ir morar em uma cidade do interior para não acabar sendo dado como “desaparecido” como muitos dos seus amigos. Eu lembro da minha madrasta, que teve que fugir da Argentina, quando lá uma outra ditadura foi levantada, ao ser influenciada, apoiada e ajudada pelos militares brasileiros que estavam aqui no poder. Começa a vir na minha memória cada mãe que nunca mais viu o seu filho, como é o caso da Zuzu Angel; cada filho que nunca mais viu o seu pai; cada dor espalhada e cada voz calada - tudo pelo bem estar apenas de alguns, pelo amor ao poder e a violência, pois isso é tudo o que algumas pessoas conseguem amar. 

Dói ainda mais escrever tudo isso 50 anos depois e mesmo assim constatar que muitas coisas ainda não mudaram, principalmente o pensamento de algumas pessoas e a famosa (e idiota) divisão de comunismo e capitalismo, que sempre resulta em discussões sem sentido - apesar de qualquer um que entenda o que é uma ditadura seja contra a mesma, independente da visão política que mais lhe atrai. Será que é preciso viver de novo certas coisas para aprender? Será que os inúmeros relatos, arquivos históricos e livros didáticos já não ensinam o suficiente? Será que existem seres humanos tão incapazes de exercerem o seu raciocínio? São perguntas que eu faço ao ler e ouvir certas coisas. 

Mais triste ainda é, depois de 50 anos do dia em que o presidente João Goulart foi destituído e foi anunciado o golpe militar no Brasil, eu ainda ligar a televisão e assistir policiais, militares, agindo com truculência contra manifestantes. É aquilo: a justiça de transição, acompanhada dos direitos humanos, não foi bem feita no Brasil - e a prova disso é o fato da polícia não ter sido desmilitarizada, como foi feito, inclusive, em outros países da América Latina. Mais louco ainda é ter, em pleno Estado democrático, leis em pauta para serem aprovadas no Congresso Nacional que definem manifestações como crimes de “terrorismo” e “desordem”. Depois de tanta luta, aqui estamos regredindo - ou apenas algumas pessoas tirando as suas máscaras. 

Dessa forma, fico aqui indagando, ao escrever esse texto angustiada, o motivo de ainda não vivermos uma efetiva democracia. Falta de educação e informação do povo? Porque isso também tem influência de cada brasileiro. Porém, não vou atacar a culpa para a vítima: vou mais a fundo. Talvez a resposta para isso seja que, ainda hoje, não possuímos um governo do povo e para o povo, entretanto para uma minoria que governa (mal) esse país - e se aproveita de todos os recursos possíveis para benefício próprio. Tudo bem que, se isso acontece, é porque a maioria votou para que aquela pessoa assumisse um cargo. Mas e aqueles que possuem o conhecimento e o retém? Eles têm voz, eles são a elite. Coloquem isso em prática. Vamos parar com o “umbigation”, como diria a Mafalda.

Assim sendo, a discussão é infinita e muito ainda precisa ser muito estudada e analisada. O que realmente importa, agora, é a memória de todos aqueles que foram torturados, de todos aqueles que precisaram sentir o real medo e fugir para não terem o mesmo destino, de todos aqueles que nunca mais apareceram e nunca foram enterrados de forma digna. De todos os pais que nunca deram um beijo de despedida no seu filho; de todo filho que ficou sem pais. A lembrança precisa estar sempre viva, para que isso jamais se repita. Tudo isso precisa sempre vir a mente de cada cidadão que hoje, apesar dos apesares, não precisa mais viver com medo intenso e sem voz, pois muitos sofreram para que hoje a nossa vida seja um pouco melhor. Essas pessoas merecem palmas, merecem ser heroínas, merecem que a história não se repita. Também merecem a utilização do nosso senso crítico, para que pessoas, que usam/usaram a imagem da luta contra a ditadura para chegarem ao poder - mas esquecem de exercer aquilo pelo qual mais lutaram - , não cheguem mais. Que possamos fazer jus e lutar por mais democracia e pelos nossos direitos. Por uma sociedade mais justa. 

Em memória de todos aqueles que lutaram naquela época, não haverá comemoração ao golpe. 
Para que não se esqueça! Para que nunca mais aconteça!
A cada companheiro tombado, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta!

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Sunday, March 30, 2014

Eu sou mulher e eu não mereço ser estuprada

Eu estava saindo outro dia, quando ouço a minha mãe dizendo que eu não deveria ir em tal lugar, com tal roupa, a tal hora, porque era perigoso. Porque o número de casos de estupros estavam aumentando. E eu, como boa moça, deveria temer isso e me “guardar”, para que nada de ruim acontecesse comigo. 
Há alguns meses eu estava voltando da praia com a minha prima, quando, ao andar por um bairro de classe média do Rio de Janeiro, com uma roupa mais solta e de biquíni, tive que aguentar uma viatura policial parando ao nosso lado e perguntando se nós, “gracinhas”, não queríamos carona. Não bastando, no outro quarteirão outra viatura fez a mesma coisa. O que fazer nesse momento? Se você responder, é desacato a autoridade. Isso foi de dia. Isso foi feito por quem deveria me proteger de medos que a minha mãe, como dito no parágrafo anterior, sente.
Eu poderia fazer um texto apenas com relatos de todos os assédios que eu já sofri, porém não há necessidade: toda mulher sabe o que é isso. Se você é homem, e não sabe como é sofrer esses atos, basta perguntar para a sua mãe, a sua irmã, a sua tia, a sua avó… a sua namorada. E eu tenho certeza que você não acharia legal ver a sua namorada sentindo-se desconfortável depois de sofrer um assédio na rua.
Entretanto, eu tenho certeza que você, caro homem, já fez um comentário machista e já assediou alguma mulher na rua - principalmente em uma balada. Quantas vezes eu não fui obrigada a “conversar” com um cara na balada, só porque ELE queria e já ia agarrando o meu braço e não querendo soltar? Se eu espernear ainda sou chamada de “nervosinha”. Sim, eu sou nervosinha, mas com pessoas desrespeitosas como essas. Não sou obrigada a conversar com ninguém.
Não é de espantar, após esses relatos, que 65% dos brasileiros achem que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Claro, porque se elas soubessem se comportar, haveria menos estupros. Não é de se espantar que, após tantos atos machistas, algumas pessoas ainda achem que os homens devem ser a cabeça do lar e os casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família. Afinal, em briga de marido e mulher, não se mete a colher e a roupa suja deve ser lavada em casa, pois o que acontece com o casal em casa não interessa aos outros. Ela que se dê por satisfeita em realizar o sonho de toda mulher: casar-se - como se esse fosse o meu sonho.
Você pode estar pensando: “mas eu não acho isso correto”. Pois bem: segundo a pesquisa do Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS/IPEA) cujo tema era “Tolerância social à violência contra as mulheres”, 65% dos brasileiros concordaram com tudo o que foi dito acima. 
Depois de tanto ficar indignada com isso (como mulher e como ser humano), cheguei a conclusão, principalmente ao ler comentários nas redes sociais, que SIM, muitas pessoas pensam dessa forma. Talvez até você, que acha que não pensa. Afinal: quantas vezes você achou que a coleguinha que foi com uma roupa mais ousada, não está realmente provocando e “querendo” algo? A culpa, como sempre, sendo da vítima. 
Quantas vezes o pai já não disse ao filho que mulher tem que “pegar” mesmo? O filho pode pegar quantas quiser, a filha não - é “puta”. Porém, quando se fala em estupro, já acham isso um horror! Mal sabem que muitos maridos praticam o estupro ao obrigarem a mulher a transarem com eles, mesmo elas estando cansadas e não quererem. Sim, isso é qualificado como estupro. Pois mulher tem que servir o marido, deixá-lo feliz. Dane-se o que a mulher sente e pensa. 
O estupro, a falta de respeito, o machismo, e tudo o mais envolvido, não é nada de outro mundo. É o mundo em que vivemos, infelizmente. Se o número de estupros aumentou, é porque muitas mulheres estão fazendo jus aos seus direitos e denunciando, pois antigamente os casos eram muito maiores, entretanto, denunciar, era sofrer mais depois - muitas vezes até do policial. Ou, até mesmo, o agressor era o seu pai, ou algum parente/amigo da família - era não: ainda é!
Portanto, a culpa NÃO é da vítima. Eu posso sim vestir a roupa que quiser. Eu posso sim sair a hora que quiser. Sabe o direito de ir e vir prescrito na Constituição? É disso que eu estou falando. Sabe os direitos iguais e o respeito? É isso que falta ser colocado em prática.
A culpa, na verdade, é das pessoas que ainda possuem uma mente conservadora, cujos valores morais e sociais ainda se atrelam a modelos ancestrais - que às vezes cismam voltar - e que, muitas vezes, são ditados por religiões e tradições que em nada se adequam aos novos tempos. Pelo contrário, buscam impor ideias limitadoras das liberdades individuais e a diminuição do papel social das mulheres, deixando a culpa sobre elas, como sempre.
A culpa é de cada um de nós. Desde o pai que educa o filho da forma mais machista possível, até os meios de comunicação que só reforçam isso e do pensamento íntimo que diz que tal mulher na rua está provocando só por causa do vestido que está usando. A culpa é nossa, não da vítima. Nós é que alimentamos isso. E, por esse motivo, cabe a nós mudarmos, através da forma como as novas gerações são educadas, através de como enxergarmos as coisas de forma tão limitada e preconceituosa, pois os 
pensamentos retrógrados não costumam sair sozinhos pelas ruas, trazem todo o tipo de preconceito: social, racial e sexual consigo. 
Sim, as coisas são interligadas. Culpar a vítima é não enxergar o problema. Isso vai do estupro ao assassinato, do roubo às agressões. Contra tudo, mais violência contra os inimigos estabelecidos, já que as “pessoas de bem” não se comportam assim. Desta forma tudo vale contra quem não é igual. O homossexual que sofre agressão homofóbica, o pobre que sofre pela sua situação social, o negro que sofre pela sua cor. 
Precisamos mudar, e precisamos mudar agora. Não basta só postar algo em apoio nas redes sociais, porém depois não mudar as suas atitudes e nem pensar sobre isso. Não adianta ficar injuriado com a forma como um cara na balada se acha no direito de agarrar a sua namorada, quando você depois acha que a menina que teve as fotos vazadas pelo namorado é a errada, ao enviar essas fotos. Não devemos apenas usar palavras bonitas, entretanto também mudar nossas atitudes. Porque ninguém merece ter os seus direitos diminuídos e ninguém merece ter a sua vida limitada por causa de pessoas que não sabem respeitar o próximo e agir como um ser racional. Mas, principalmente: ninguém merece ser estuprado; ninguém merece sofrer qualquer abuso, moral ou físico.



Sunday, March 23, 2014

Um passado que não foi morto e enterrado

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Fui na exposição do Centro Cultural Banco do Brasil, aqui no Rio, sobre os 50 anos do golpe militar, que trouxe 21 anos de violência e repressão. Lá estava eu, observando um quadro que um preso, na época, fez na prisão. É como se eu sentisse tudo o que ele sentia, toda a forma de tortura (tanto física como psicológica), todo o medo e toda a violência que ele sofria. Era como se eu estivesse me teletransportando para aquela época, aquele momento. 
Olhar a capa dos jornais da época e a censura que eles sofriam, era para fazer pensar. Um falava sobre a legalização do aborto, o relacionamento homo afetivo, a luta feminista e os direitos iguais - isso na década de 60. É estranho pensar que tudo isso já era discutido na época, porém nada mudou após todas essas décadas. Foi nesse ponto que eu comecei a fazer uma associação com o passado e o presente, de forma bem intensa.
Da mesma forma que na ditadura os manifestantes eram “terroristas”, ao lutarem contra um regime onde todos pareciam ser da esquerda rival para os militares, onde ninguém tinha voz e a democracia não existia, atualmente os manifestantes são terroristas para governantes que dizem, nas suas propagandas eleitorais, que lutaram contra a ditadura. O mais bizarro: é uma polícia MILITAR que é colocada contra os manifestantes.
Antes os jornais eram censurados, hoje eles censuram - verdades, ideias, vozes e opiniões. Antes a arte andava junto com a política, hoje ela ajuda a alienar ainda mais o povo. Antes uma classe média se achava vítima, fez uma marcha a favor de Deus e dos bons costumes, ajudou a mudar a política de um país… e depois se arrependeu, quando a economia começou a não caminhar mais a favor da sua prosperidade e os seus filhos começaram a sofrer também, ao perderem a sua liberdade.
O mais triste de tudo é perceber que, após os direitos humanos serem usados como uma justiça de transição para que um Estado democrático fosse implantado, hoje ele não passa de uma utopia, que deixa a seguinte questão: direitos humanos para quem? Talvez para quem se acha mais certo do que alguém, a ponto de julgar, de olhar o próprio umbigo e dizer que, no final, são todos “marginais”. 
Talvez a democracia e os direitos humanos existam para aqueles que podem ir onde quiserem (pois tem recursos financeiros para isso), nunca entrou em uma escola pública e não faz parte do lado mais fraco de uma sociedade preconceituosa, conservadora e que vive um falso moralismo. No final, os anos passaram, entretanto pouquíssimas coisas se transformaram. Um exemplo disso é, depois de 50 anos, ainda ter gente planejando uma marcha da família e pregando tudo aquilo que parecia passado. Lavagem cerebral? Talvez. Porém prefiro ser mais realista: o brasileiro, infelizmente, aprendeu muito pouco com a sua história. 

Saturday, March 15, 2014

Aqui estou eu, suspirando

Aqui estou eu, suspirando novamente. O mundo parecia estar mais bonito, só de saber que de manhã eu teria uma mensagem de “bom dia”; o mundo se tornou mais bonito porque eu sabia que tinha alguém ali, que eu podia contar. Não que eu não tenha com quem contar, porém as pessoas possuem suas vidas, seus problemas… seus amores.
Aqui estou, escrevendo novamente sobre o amor. Quem diria. Cheguei a conclusão, ao tentar explicar para um amigo como eu caí nessa de me apaixonar novamente, o que realmente me impedia de amar antes. Sim, eu tinha medo. Quem não tem? Eu tinha medo de novamente confundir tudo, ou ser magoada… ou estar com uma pessoa que só quisesse se aproveitar de mim.
Entretanto agora é tudo diferente. Eu precisei experimentar algo, deixar as coisas acontecerem no seu tempo, quebrar todas as correntes - de uma sociedade insana, dos preconceitos, dos rótulos - e me permitir viver. Quem diria. Logo agora, que eu teria muito mais medo, eu não tenho nenhum. Nunca me senti tão livre e completa como agora. Sim, o amor renova, revive, te faz pensar e te faz ver as coisas além de qualquer rótulo. 
Você olha para a pessoa e não vê o que toda a sociedade vê, mas sim uma pessoa que você gosta (muito), está apaixonada, é incrível e te faz feliz. Às vezes você até pensa no que todos irão dizer, em como será tratada, se será aceita… e então você olha novamente no olho daquela pessoa e pensa: vale realmente a pena abrir mão da minha felicidade, de um sentimento verdadeiro, por pessoas que sequer sabem o que é isso? De repente você tem forças, segura na mão da pessoa e vai, apesar dos olhares ou do que quer que seja.
Há pouco tempo eu diria que nunca iria me apaixonar de novo, que não ia deixar nada mexer comigo… e aqui estou, apaixonada. E eu nem lembro daquela antiga pessoa que dizia isso. 
Sim, o amor é capaz de curar tudo. O amor traz coragem, força, felicidade, faz você olhar para o seu interior e tentar melhorá-lo todo dia. Quando resolvemos experimentar, nos entregar e viver, o resto se torna resto. Parece que o tempo para e todos os problemas somem. E sabe aquele resto? Eles só vão entender quando enxergarem o amor na sua mais pura forma: sem rótulos, sem “certo” ou “errado”, sem preconceitos, sem “eu” e mais “nós”. Se vai dar certo? Eu só saberei vivendo. E se não der, uma coisa é certa: pelo menos eu vivi, eu experimentei, eu fui feliz. Eu estou sendo feliz. E sobre os rótulos: quem se rotula, se limita. Vá ser feliz.

Friday, March 14, 2014

É o Afeganistão, mas podia ser o Brasil

”(…) meu guia me orientou num passeio por Cabul. Parecia que para todo lado onde olhávamos havia desenvolvimento espúrio. Vi poucas evidências de planejamento urbano, ou intenção de tampar as redes de esgoto abertas, ou de construir hospitais e escolas. Em vez disso, a cidade havia assistido a uma erupção de hotéis de alta classe, cybercafes, bares e piscinas, as quais, me disseram, ficavam rodeadas de mulheres europeias de biquíni. (…) O custo de vida em Cabul é tão alto (ou mais) quanto nos Estados Unidos. Antes da invasão dos Estados Unidos, o aluguel de uma casa pequena, perto da cidade de Cabul, custava entre 50 e 60 dólares por mês. Agora, o preço havia disparado para US$ 1.500 por mês. (…)
Todo o assim chamado desenvolvimento não era para os afegãos, nem mesmo para o Afeganistão. Era para as ONGs europeias e americanas, para pessoas que podem bater-papo por contas telefônicas de satélite e conectar seus Sony Vaios nos cybercafes. Esse era o tipo que se hospedava no InterContinental (…) onde os hóspedes podiam deixar US$ 350 de diária por um quarto ou US$ 1.200 de diária por uma suíte presidencial. O afegão médio precisaria trabalhar por mais de quatro anos para ser capaz de arcar com uma única noite ali.
Quando visitei o Kabul City Centre, um maciço megacentro de compras de multimilhões de dólares (…) era ainda a mesma coisa. Europeus, americanos e afegãos que viviam no exterior passavam o tempo fazendo compras de artigos eletrônicos de ponta, roupas de estilistas, pedras preciosas (…). A única moeda aceita era o dólar. Com a estação de férias aproximando-se rapidamente, havia cartazes de ofertas de Natal por toda a parte. Aquilo parecia estranho num país predominantemente muçulmano. 
Fora do gigantesco centro de decadência, era outra história. Os “pashtun” tipicamente orgulhosos haviam recorrido ao recurso de pedir esmolas. Era a única maneira de se beneficiar do grande desenvolvimento que acontecia ao redor. Meninos e meninas afegãos, em roupas esfarrapadas, reuniam-se sob o cortante vento frio de inverno. Estendiam as mãos sujas, na esperança de que um comprador rico sentisse piedade. Alguns, sem as pernas, por causa das minas terrestres, arrastavam o corpo pelo pavimento gelado, mas a maior parte dos visitantes desviava o olhar e caminhava rapidamente para os aquecidos Land Rovers à espera. (…)
Perto das mega mansões de Wazir Akbar Khan estão os cortiços de Cabul, fileiras de casas de barro e esgotos a céu aberto. Eles não têm eletricidade, nenhuma água corrente, nem mesmo qualquer calor para amenizar as temperaturas abaixo de zero. O afegão médio vive em pobreza abjeta. Enquanto passávamos por esse bairro, observei crianças carregando outras em carrinhos de mão e brincando em montes de lixo. Elas não tinham playgrounds, creches ou roupas limpas como as crianças americanas. Menininhos e menininhas corriam para o carro, com os dedos levantados pedindo algum troco. Alguns eram tão pequenos que mal podiam alcançar a janela do carro. 
As crianças do Afeganistão carregam o peso da pobreza da nação. Embora tenha havido melhorias desde que o Talibã foi expulso, o país ainda tem a segunda taxa de mortalidade mais alta do mundo, precedido apenas por Serra Leoa. A grande maioria das mulheres afegãs não recebe nenhum cuidado pré-natal e dá à luz em casa, sem auxílio de uma parteira ou de um médico. Como resultado, o Afeganistão tem a distinção de possuir o maior risco de vida em mortalidade materna. Uma em cada seis mulheres afegãs morre ao dar à luz todos os dias. Uma criança em cada quatro morre antes dos cinco anos. A expectativa de vida para homens é de 45 anos; para mulheres, de 44. Quase 90% das mulheres afegãs são analfabetas. A maioria das mulheres afegãs se casa antes dos 18 anos. Muitas são forçadas ao casamento por várias razões, inclusive para estabelecer feudos ou pagar débitos.” - Mahvish Rukhsana Khan, “Diário de Guantánamo”

Impossível ler o capítulo desse livro e não pensar no Brasil. Tirando a questão da guerra (apesar de ligarmos a televisão e vermos tanques do Exército subindo uma comunidade carente no Brasil - vulgo cenário de guerra), a segregação social e o falso desenvolvimento me trazem uma imagem nítida do Brasil.
Enquanto levantamos hotéis, construímos estádios padrão FIFA e tentamos tapar o sol com a peneira em muitos problemas urbanos brasileiros, para camuflar as cidades para os “gringos”, o REAL povo brasileiro só sente ainda mais. 
Faça uma análise: tente comprar alimentos necessários com 50 reais. Agora pensa comigo: se você já acha que é um absurdo o preço das coisas, que dirá uma família que precisa se bancar com R$1.200 reais por mês. 
Outro dia, ironicamente, ouvi uma pessoa perguntando o motivo de eu não pegar ônibus com ar-condicionado. Ouvir isso de uma pessoa que mora na zona sul carioca é no mínimo um deboche, pois, saindo daquela bolha de local estruturado, com praças e policiamento, a realidade brasileira é bem diferente. Para quê colocar ônibus de ar-condicionado em outras regiões da cidade? Lá não tem turista. Para quê estender o metrô até outras áreas? O povo do Leblon sequer quer pobre “invadindo” a sua praia. 
Isso fica ainda mais evidente quando você para e nota o número de shoppings de luxo que tem crescido no Brasil, e como as pessoas crescem os olhos para eles. Enquanto isso, um professor do Estado ganha 800 reais por mês - o que muitos gastam em uma peça de roupa nessas boutiques. Desenvolvimento para quem? Riqueza de quem? “E o rico cada vez fica mais rico; o pobre cada vez fica mais pobre”.
Copa do Mundo? Não, eu não quero Copa. Eu não quero esses falsos discursos de “país de primeiro mundo e país sem pobreza”. Eu não quero promessas. Eu quero mudanças de verdade e que não sejam apenas para uma faixa privilegiada da sociedade. Eu quero o Brasil para os VERDADEIROS brasileiros, aqueles que trabalham de sol a sol para terem um PISO salarial no mínimo irônico e chegarem em casa, terem que cruzar com um policial com fuzil parado na sua porta, não terem sequer um saneamento básico no banheiro e ainda terem que ouvir que o país “está evoluindo”. 

Thursday, March 13, 2014

A regra agora é ser feliz

Não escrevo há muito tempo, entretanto existe uma explicação para isso. Há tantas coisas acontecendo que tudo o que eu consigo escrever no momento são histórias da vida de uma pessoa: a minha história. Eu posso escrever a história da antiga eu e da atual eu, de tanto que eu mudei. Em um mês eu vivi tanta coisa, aprendi tanta coisa e experimentei tanta coisa, que parece não existir mais aquela antiga garota. 
Desde que iniciei a universidade, eu aprendi uma coisa: quem se rotula, se limita - e é esse lema que tem impulsionado a maioria das minhas transformações. Muitas vezes nos rotulamos tanto, e nos encaixamos tanto em modelos criados pela sociedade, que esquecemos de parar para perceber quanta coisa estamos perdendo, sendo a principal delas a nossa felicidade.
A partir do momento que paramos e observamos o quanto nos limitamos ao olharmos muitas vezes apenas o exterior, e não o interior das coisas, percebemos quanta coisa perdemos ao sermos mesquinhos. Então olhamos o mundo com outros olhos, fora da caixinha. 
Uma pessoa se torna uma pessoa, com suas qualidades e defeitos, e não mais um(a) menina/menino, assim ou assado. Você passa a ver o seu interior apenas e muitas vezes se apaixona por ele, independente do sexo de cada um. A natureza não é mais apenas a natureza, mas é tudo aquilo que tem vida e que move a sua vida. Você se conecta muito mais com as coisas, porque elas não são mais rotuladas… elas são o que elas são, na sua essência mais pura e bonita. 
A única coisa ruim disso tudo é perceber como a sociedade ainda está presa em conceitos, pré-conceitos e a um conservadorismo sem tamanho. Sim, você está se libertando de todas as correntes que te prendiam, como os homens no “Mito da Caverna” de Platão, porém, como viver em uma sociedade julgadora? 
De repente você passa a viver o outro lado da moeda: um lado que sim, ainda é frágil. Um lado dos “diferentes”, dos julgados, dos que precisam ter a sua liberdade e a sua felicidade limitados por causa de uma sociedade medíocre. É como Sócrates, que possuía a luz da sabedoria e de muitas outras coisas sobre a vida, mas foi julgado como “errado” e “louco” por uma sociedade que o fez beber um veneno e se matar (que forma mais insana de matar uma pessoa, não? Como se ela mesma estivesse se julgando). Apesar de Sócrates ter vivido antes de Cristo, é triste constatar que, apesar de nos dizermos tão modernos e evoluídos, nada mudamos. Continuamos em uma sociedade repressora.
O que eu quero disso tudo? Ser feliz, mesmo que para isso tenha que ser julgada e tenha que enfrentar olhares. Pois, aquelas amarras que antes me faziam deixar de olhar meu interior, e a minha felicidade, não existem mais. Eu saí da caverna.

 
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